quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Estou perto do coração selvagem


Estou lendo "Perto do coração selvagem", de Clarice Lispector. O melhor que poderia me acontecer foi ler este livro com o mar de fundo, sentada numa sombra, tomando guaraná Antarctica. Selecionei alguns excertos para nós (que poderiam ter sido escritos por mim, não porque me sinta capaz como Clarice, mas porque são exatamente aquilo que sinto, sem a habilidade que ela alcançou ..quem me dera, não??). Sinta Lispector, se puder...


O que vai acontecer agora?


O melhor mesmo era calar.


Quem disse pela primeira vez: nunca?


Tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser o que é- no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente-; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação do meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos-relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber; é essa minha maior humildade.


A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou?


É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.


Durmamos de mãos dadas.


O que é que se consegue quando se fica feliz?


Como se ligar a um homem senão permitindo que ele a aprisione?Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma quatro apredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?


Deitou-se sobre a cama. Dentro de si era como se não houvesse a morte, como se o amor pudesse fundí-la, como se a eternidade fosse a renovação.
Eu sou uma pessoa. E muitas coisas iam se seguir. O quê? O que acontecesse contaria a si própria. Mesmo ninguém entenderia: ela pensava uma coisa e depois não sabia contar igual igual.Sobretudo nisso de pensar tudo era impossível.
Uma coisa que se pensava não existia antes de se pensar.
Mesmo sofrer era bom porque enquanto o mais baixo sofrimento se desenrolava também se exisitia - como um rio aparte. E também se podia esperar o instante que vinha...que vinha... e de súbito se precipitava em rpesente e de repente se dissolvia... e outro que vinha... que vinha.
Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida do animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. É um pouco simplista o que estou falando, mas não importa por enquanto. Compreende? Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade, é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. Eis aí um resumo, se você quer. Compreende?
Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um tempo maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.
Coisas que existem... outras que apenas estão...
Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida....Quando me surpreendo no espelho ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade..Às vezes, à minha descoberta, segue-se o amor por mim mesma, um olhar constante no espelho, um sorriso de compreensão para os que me fitam.
O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?
Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim.
Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
Porque ela nascera para o essencial, para viver ou morrer. E o intermediário era-lhe o sofrimento.
A personalidade que ignora a si mesma realiza-se mais completamente.
Sabia que era inútil resolver sobre o próprio destino. Amava Otávio desde o momento em que ele a quisera, desde pequenos, sob o olhar alegre da prima. E sempre o amaria. Inútil seguir por outros caminhos, quando para um só seus passos a guiavam.
No entanto como seria bom construir alguma coisa pura, liberta do falso amor sublimizado, liberta do medo de não amar..Medo de não amar, pior do que o medo de não ser amado.


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